Hayley Williams fala sobre as dores, angústias e dificuldades que enfrentou desde o início de sua carreira

O aclamado ‘After Laughter’ foi lançado esse ano e sabemos que ele trata das experiências de vida que a banda passou nos últimos anos, em especial as de Hayley Williams na luta contra ansiedade e depressão. Mas, há uma diferença, se comparado aos assuntos descritos nos álbuns anteriores: ele ainda está sendo vivenciado.

Não é um trabalho sobre o passado, mas sim sobre o presente. E não podemos esquecer das nuances de esperança que o contornam, trazendo uma reconfortante sensação de paz para um futuro próximo.

A nova edição da revista The FADER revela não somente um photoshoot incrível com Hayley Williams, mas também uma entrevista de tirar o fôlego, onde a vocalista realmente abre o jogo sobre suas angústias.

Acesse e confira o photoshoot de Hayley Williams para a The FADER!

Muitos pontos permaneciam desconexos para o público da banda e os fãs se questionavam frequentemente sobre coisas como o motivo que levou Hayley a compor ‘Forgiveness’, os gatilhos que a levaram a pensar constantemente sobre a morte, seu contato com a mídia a partir de agora, o desfecho da separação com Jeremy Davis, sua saída sigilosa da banda em 2015, entre outros.

Essa entrevista fará você repensar tudo o que você já pensou e falou sobre Paramore. Cada julgamento será colocado em jogo bem à frente de seus olhos a partir de agora:

EMOÇÕES ADULTAS: Hayley Williams é um ícone da angústia de uma geração inteira. Agora, aos 28 anos, ela está descobrindo que tem a própria inquietude para lidar.

Matéria por Alex Frank / Fotografia por Jason Nocito

Ao encontrar Hayley Williams pela primeira vez, ela me recebe com um abraço e o maior sorriso que você poderia imaginar. Nós estamos em um restaurante de lamen na sua cidade natal, Nashville, falando sobre os bolinhos de milho frito que estão entre nós, bebendo chá, com a Hayley apoiando seus dois pés, com Vans cobertos de glitter, na cadeira ao lado dela.

Descubro que ela trata quase todo mundo com essa familiaridade natural. Um pouco depois naquela tarde, nós cruzamos a cidade no carro dela, um Fiat azul claro cheio de garrafas d’água pela metade, parando em lugares que ela ama. Um cara de piercing no nariz e cabelo bagunçado da casa de sucos é o que recebe o “olá” mais afetuoso; um homem com dreads compridos que trabalha na loja de um amigo dela recebe um cumprimento sorridente e um forte aperto de mão. Se você entrar em qualquer lugar com a Hayley, você não tem como saber se ela já conhecia as pessoas daquele lugar a vida inteira ou se ela está as conhecendo pela primeira vez.

Essa sensação de intimidade imediata sempre a serviu muito bem. Hayley assinou com a Atlantic Records como vocalista e letrista do Paramore quando ela tinha apenas 15 anos. Com o cabelo tingido de vermelho como um super-herói dos quadrinhos e uma voz poderosa, que ela costumava usar mais para gritar do que cantar, ela se tornou uma rockstar e um ícone para jovens emos e punks ao redor do mundo. Em músicas empolgantes do Paramore como ‘Emergency’ e ‘Misery Business’, ela provou ser uma letrista sensível e poética, compondo canções sobre amadurecimento, primeiro amor e a primeira decepção amorosa, sempre com um senso de força e entusiasmo. E foi tudo ainda mais empoderador porque os colegas mais próximos da banda – grupos como My Chemical Romance e Fall Out Boy – eram lideram quase que exclusivamente por homens agonizados. Paramore vendeu milhões de discos, tocou no TRL e até gravou o single principal do primeiro filme da série Crepúsculo, o melo-drama adolescente essencial da era Obama.

Enquanto eu e Hayley discutimos a essência do novo álbum da banda, ‘After Laughter’, durante o almoço, ela apoia o queixo na palma da sua mão. Ela tem 28 anos agora e seu característico cabelo se transformou em um loiro levemente sintético, que cai livremente sobre os seus ombros. “Cara, eu não sei”, ela diz sobre os temas mais sombrios do álbum. “Eu não me sinto mais tão esperançosa quanto eu me sentia na adolescência.”
Ouvindo pela primeira vez, o álbum pode parecer alegre, mas fica claro que a Hayley ainda está resolvendo alguns problemas profundos nas letras. “Reality will break your heart / Survival will not be the hardest part” (“A realidade irá partir seu coração / Sobreviver não será a parte mais difícil”), ela canta em ’26’, a sua voz com um tom de pesar. “If I lay on the floor / Maybe I’ll wake up” (“Se eu deitar no chão / Talvez eu acorde”), ela clama na surpreendentemente destemida ‘Forgiveness’, uma música que ela escreveu sobre alguns momentos difíceis que ela passou com o marido Chad Gilbert, o guitarrista da banda de pop-punk New Found Glory. Em ‘Fake Happy’ ela canta sobre como ela sorri para as pessoas acharem que ela está bem e como ela presume que todo mundo é secretamente tão insincero quanto.

Essa melancolia é diferente dos seus problemas da adolescência – é mais reflexivo, adulto, debilitante. Ela diz que tem lutado contra a depressão nos últimos anos, uma luta marcada por momentos em que ela ficava na cama o dia inteiro assistindo episódios antigos de The Office. Ela diz que chegou a ficar tão grave em certos momentos, que ela começou a ter muitos pensamentos fixos sobre a morte, mais do que ela poderia suportar, e então ela procurou um terapeuta: “Pela primeira vez na minha vida, não existia nenhum ponto de luz no fim do túnel. Eu só queria que tudo parasse. Não era no sentido de tirar minha própria vida. Era só falta de esperança. Tipo, qual é o sentido disso? Eu acho que eu não entendia o quanto a desesperança é perigosa. Tudo dói.”

Hayley, confidencialmente, até chegou a deixar a banda por um curto período no verão de 2015, se sentindo exausta e pensando que ela não tinha mais nada para dizer ou cantar. “Pra mim não dava mais,” ela diz. “Eu pensei: deve existir alguma outra coisa que eu saiba fazer bem na vida. Talvez seja a hora de ir descobrir o que.” Mas, depois que ela saiu, Taylor York – seu principal parceiro nas composições e, junto com Justin Meldal-Johnson, o co-produtor do ‘After Laughter’ – começou a enviar a ela músicas inacabadas só para ver o que aconteceria. Ele também tem um histórico com depressão.
“Nós dois tínhamos dúvidas e nós tínhamos união nisso”, Taylor diz. “Eu disse a ela que ela não tinha que fazer as coisas. Mas eu continuei compondo e aí teve esse momento que ela conseguiu voltar”. Hayley começou a criar alguns riffs com os instrumentais do Taylor e acabou compondo a melodia e a letra de ‘Forgiveness’, a primeira música do que se tornaria o ‘After Laughter’. Eles continuaram a criar dessa maneira, com o Taylor enviando ideias simples e Hayley se soltando sobre elas. E as músicas continuaram chegando.

Em Nashville, Hayley e eu paramos em uma casa de sucos, e, enquanto bebemos smoothies, eu digo a ela o quão impressionado estou com a sua fácil sociabilidade, levando em consideração que ela está processando algumas coisas difíceis, até a morte, no ‘After Laughter’. Ela ri um pouco nervosamente e, pela primeira vez no nosso dia, o seu brilho diminui um pouco também. Para ela parece óbvio ser simpática, ela me diz, e estranho que eu tenha ressaltado a sua educação. Se o mundo acabasse, ela diz, gentileza é como ela gostaria de ser lembrada: “Cara, eu fui ensinada a ser gentil. Eu não vou estar aqui um dia, e eu tenho que aceitar que o amanhã não é uma promessa. Eu estou bem com o jeito que eu estou vivendo hoje? É a única coisa que eu posso fazer. Se eu não tivesse mais um dia, o que eu teria feito com o meu presente? Eu estou fazendo um bom trabalho?” Ela olha pra mim diretamente. “Como você quer ir embora?”

Antes de Hayley Williams ser tornar uma líder no pop punk, ela era mais do tipo que curte Motown. Nascida em Mississippi, ela era tímida mas começou a cantar em um coral infantil da igreja. Depois que seus pais se separaram, o segundo casamento da sua mãe se tornou instável: “Um dia, eu cheguei em casa depois da escola e minhas malas estavam feitas”, ela diz. “Nós não tínhamos pra onde ir, então nós fomos morar com uma amiga dela em um trailer duplo bem do lado de fora do estacionamento da escola”. Por fim, quando outra amiga da sua mãe se mudou para Franklin, Tennessee, nos arredores de Nashville, mãe e filha seguiram. Elas concluiram que se era música o que a Hayley gostaria de fazer, então não era ruim estar perto de Nashville.

Aos 13, Hayley escrevia poesias e cantava em uma banda local de funk para ganhar dinheiro. Na escola ela era zoada pelo seu sotaque caipira e tinha dificuldade em encontrar relacionamentos duradouros. “Eu sofri tanto bullying quando eu mudei pra cá que eu comecei a treinar como falar a palavra ‘awesome’ sem sotaque”, ela diz. Preocupada com o tratamento que ela recebia na escola, a sua mãe encontrou um tutorial sobre ensino doméstico em uma igreja que se reunia uma vez por semana e tirou a Hayley da escola pública. “Ela disse: ‘Eu posso confiar que você vai ficar sozinha em casa quatro dias por semana?’ E eu disse: ‘Sim. E eu vou compor músicas o dia inteiro.'” Por ela ser muito sozinha, a sua mãe a encorajava insistemente a entrar para uma banda em tempo integral só para que ela pudesse fazer amigos. Hayley concordou, parcialmente devido ao seu amor por Hanson: “Três irmãos que tocam músicas juntos? Fala sério. Eu falava: ‘Eu quero isso.'”

No programa de ensino doméstico ela conheceu os irmãos Zac e Josh Farro, que, apesar de terem 11 e 14 anos, respectivamente, já tinham gravado algumas músicas. Ela estava muito empolgada e eles a acolheram de cara. “Eu cresci ouvindo pop e R&B, e aí eu caí no mundo deles, onde eu estava escutando Elliott Smith, Radiohead e Deftones, eu pensava: ‘O que eu faço com isso? Eu nunca tentei escrever músicas assim'”, ela relembra. “Mas o Zac começou a fazer uma batida e, de repente, isso acabou virando uma música chamada ‘Conspiracy’, que está no nosso primeiro álbum. Eu literalmente sentei com o microfone e cantei discretamente as palavras que eu tinha escrito.”

A banda, que também tinha mais outros dois meninos, foi formada e começou a fazer shows em lugares como eventos do grupo de jovens da igreja, mas Hayley também estava gravando suas próprias demos e as enviando para as gravadoras. Avril Lavigne tinha acabado de aparecer, aumentando o apetite da indústria para alternativas rockeiras à Britney e Christina. “Eu não acho que eu teria sido contratada se a Avril não tivesse acontecido”, ela diz. “Do nada eu estava em Nova York tocando para o LA Reid”. Várias gravadoras a queriam, mas somente a Atlantic disse que ela poderia continuar com a banda ao invés de seguir carreira solo. Tinha uma pegadinha: eles iriam oferecer um contrato separado para a Hayley através da Atlantic e os outros integrantes da banda seriam contratados por uma das suas subsidiárias de rock, a Fueled By Ramen.

Paramore lançou o seu primeiro álbum, ‘All We Know Is Falling’, quando ela tinha 16 anos. Eles foram convidados para tocar na Warped Tour, primeiro em um dos palcos menores, e então, na terceira vez que eles participaram, como uma das bandas principais. Naquela época, a Warped Tour era uma mistura de emo, pop punk e bandas de post-hardcore – tudo que fosse classificado como alternativo – e Paramore, com as suas canções sensivas porém agressivas, estava em algum lugar nesse meio. Em vídeos de performances antigas, Hayley ressalta seu intensidade e força. Ela pula pelo palco inteiro, bate o cabelo vermelho e traz fãs no palco para cantar com ela.

“Foi o meu ensino médio”, ela diz sobre a Warped Tour. “Nós aprendemos como nos conectar com as pessoas de cima de um palco”. Ela era uma das poucas mulheres entre os artistas principais. “Na metade [da Warped Tour] começaram a aparecer meninas com o cabelo igual ao meu”, ela diz. Ela desenvolveu uma presença formidável: em 2007, em um show na Alemanha, onde eles estavam dividndo o palco com a banda mais brutal Korn, Hayley jogou uma garrafa no público, pensando que alguém da platéia tinha jogado a garrafa no palco para menosprezar a banda. Ela então percebeu que era só um inofensivo lixo que tinha ficado ali, mas ela exibiu sua coragem do mesmo jeito.
Na turnê, o seu pai os levava de cidade em cidade dirigindo uma pequena van. “Nós comíamos sanduíches de manteiga de amendoim com geléia todo dia”, ela relembra carinhosamente. Ela conheceu seu marido atual no backstage quando tinha 18 anos; eles ficaram amigos antes de começarem a ter um relacionamento amoroso. Nessa época ela namorava o Josh, seu parceiro nas composições também. “Nós éramos crianças! Mesmo quando a gente namorava, não parecia que a gente namorava. Era meio: ‘Ah legal, a gente se beija às vezes”, ela diz. Todos na banda foram criados como cristãos e, apesar de todos terem adotado uma abordagem mais moderada em relação à espiritualidade, na época eles preservavam uma atitude saudável, mesmo quando cercados por todo o caos do circuito de festivais. “Nós crescemos no Cinturão da Bíblia”, diz Zac. “Existem muitas regras que foram impostas pela igreja. Não beba, não transe, não use drogas, não fale palavrão”.

Tirando a Hayley, sete integrantes já entraram e saíram do Paramore desde 2005, alguns bem rancorosos. Pode ser um pouco difícil de acompanhar e a mídia está sempre arrebatada pelo drama, com rumores circulando sobre o motivo da saída dos membros: as ambições solo da Hayley, disputas sobre os créditos nas composições e simplesmente apenas brigas. Agora eles são um trio: Taylor, que está na banda desde 2007, na guitarra, e Zac na bateria, depois de sair da banda em 2010 com o seu irmão Josh e depois retornando por conta própria em algum momento no ano passado.
A última pessoa a sair for Jeremy Davis, o baixista original, em 2015. Processos foram abertos dos dois lados e foram resolvidos na última primavera com termos não divulgados. ‘Tell Me How’, uma doce balada com piano que fecha o ‘After Laughter’, é uma reflexão sombria sobre a sua saída: “I can’t call you a stranger / But I can’t call you” (“Eu não posso te chamar de estranho / mas eu não posso te ligar”), ela canta. “Do I suffocate or let go?” (“Eu sufoco ou deixo pra lá?”). Hoje ela está cansada de falar sobre o espetáculo das mudanças na formação da banda, algumas delas que se relacionam diretamente à estrutura desigual do contrato deles, quando surge esse assunto, na maior parte do tempo, ela fala através de generalizações. “Eu passei por muitas traições na minha vida. Eu não quero jamais me fazer de vitima, mas eu acho que me assusta ter que contar tudo”, ela diz. “Eu realmente não quero ter que apagar mais pessoas da minha vida. Eu já fiz isso o suficiente.”

Enquanto o sucesso da banda crescia, o poder estelar da Hayley se mostrava cada vez mais brilhante. Ela participou da música ‘Airplanes’, do rapper B.O.B, em 2010, que acabou alcançando o segundo lugar nas paradas de sucesso. Em 2011, ela foi capa da revista Cosmopolitan, embonecada como uma celebridade de Hollywood. “Eu tenho certeza que eles aumentaram meus peitos”, ela relembra rindo. Uma vez, ela conta, em uma tentativa errada em força-la a seguir uma direção mais voltada para as rádios, Lyor Cohen, o lendário executivo da indústria fonográfia, que trabalhava na Atlantic na época, ligou para ela para diz que ela precisava compor com Chad Kroeger do Nickelback. Hayley rejeitou educadamente com força. Ele insistiu. Então ela disse não novamente e desligou o telefone. “Simplesmente não é o que eu quero”, ela diz sobre a possibilidade de seguir carreira solo. “Eu não sei se eu seria capaz de encarar milhares de pessoas se eu não puder olhar para a minha esquerda, para minha direita e atrás de mim e perceber que eu estou cercada de pessoas que sabem exatamente quem eu sou.”

Um benefício agridoce de todas as idas e vindas do Paramore foi que, enquanto a formação se transformava, o som também se desenvolvia. Esse é um dos motivos pelos quais, 12 anos depois do lançamento do seu primeiro álbum, o grupo ainda está na ativa e, sobretudo, de forma relevante. Hayley é obcecada por Talking Head, isso pode ser percebido nos ritmos lúdicos e excêntricos do ‘After Laughter’. É totalmente diferente dos riffs de guitarra agressivos do Paramore antigo, muito disso porque Taylor substituiu Josh como parceiro de composição da Hayley, e ele também compartilha do mesmo amor por new wave e R&B que ela tem, e que agora eles estão livres para explorar juntos.
“Quando eu comecei a compor”, Taylor conta, “eu estava trazendo para a Hayley várias músicas com grandes riffs de guitarra – mais do mesmo. Cada ideia que eu mostrava pra ela, ela dizia: ‘Legal, mas você tem outra coisa?’. A única coisa que eu tinha pra mostrar a ela era ‘Ain’t It Fun’ – eu trouxe pequenas caixas de som e coloquei em cima de garrafas d’água só para que elas ficassem altas o suficiente. Era uma batida e marimba. Eu pensei que de jeito nenhum isso era Paramore, mas os olhos dela brilharam. E esse foi um momento determinante”.

‘Ain’t It Fun’, uma música sobre a dificuldade da transição entre a adolescência e a vida adulta, serviu como um ponto chave para o seu álbum auto-intitulado, de 2013, e se tornou o seu maior hit até hoje. Assim como seus álbuns anteriores, ele foi Disco de Platina, mas ele também recebeu elogios brilhantes da crítica, algo que, apesar da popularidade da banda, eles não conseguiam. A música tem um refrão triunfante, poderoso – semelhante aos grandes hits produzidos pelo super-produtor Max Martin – e a Hayley e o Taylor não precisavam de uma máquina produtora de hits para criar por eles. Porém, nem todo mundo compreendeu de primeira a reinvenção do Paramore. Qualquer coisa parecida com rock foi tirada das rádios em uma época de estrelas cartunescas como Katy Perry e Nicki Minaj. Antes que a gravadora tentasse trabalhar com ‘Ain’t It Fun’, eles trouxeram o hit chiclete ‘Still Into You’ para fazer um teste. Na Z100, uma das maiores rádios de pop do páis, um dos programadores disseram que ele simplesmente não podia colocar nada que tivesse guitarras no ar.

Meses depois, ‘Still Into You’ e, finalmente, ‘Ain’t It Fun’, tinham ganhado tanto impulso na força da sua intocável capacidade de cativar que as duas músicas alcançaram o Top 40. Voilá, existiam guitarras nas rádios pop novamente. Em 2015, ‘Ain’t It Fun’ rendeu ao Paramore seu primeiro Grammy, tornando a Hayley a primeira mulher a ganhar na categoria “Melhor Canção de Rock” desde Alanis Morissette 16 anos antes. O som refinado, mais suave do Paramore provou ser um tanto quanto profético: a amiga da Hayley, Taylor Swift, realizou um truque de mágica similar (ainda que em uma escala muito maior) em 2014, quando ela deixou para trás o country do seu passado em favor de um brilho bem mais sem emoção. Com a ajuda de Max Martin, Taylor colocou uma ênfase nos refrões fortes, que a Hayley tinha acabado de provar que era muito capaz de criar. Hayley até fez uma participação no clipe da música principal do álbum, ‘Bad Blood’, uma música de luta rebelde que é o mais próximo do espírito forte da Hayley que a pura Taylor Swift poderia chegar.

Atualmente, Paramore está, talvez, mais forte do que nunca, não só porque eles sobreviveram à era pop punk e se transformaram em uma verdadeira banda adulta, mas também porque o mundo parece ter se rendido à atitude turbulenta introduzida pelo Paramore. Todo mundo, de artistas country a rappers, flertam com o pop punk – o artista country de 22 anos, Tucker Beathard, recentemente contou à Pitchfork que não foi Brad Paisley que o inspirou a se tornar um artista, foi ver o Paramore no seu aniversário de 14 anos. O rapper revelação e também entusiasta do cabelo rosa, Lil Uzi, há pouco tempo gravou um vídeo cantando e sorrindo ao som de ‘Ain’t It Fun’, e depois criou um dos maiores hits do ano ao misturar pop rock com hip-hop em ‘XO TOUR Llif3’. “Paramore expandiu meu gosto musical”, diz Uzi. “Eles cresceram sendo os caras legais do bairro. Eles são incríveis pra caralho e é por isso que eu continuo curtindo as músicas deles”. A ansiedade está de volta.

E agora tem o ‘After Laughter’, um novo álbum onde o conceito de Paramore nunca fez tanto sentido. É o álbum mais consistentemente excelente da discografia da banda. As letras são profundamente sentimentais, como sempre foram, e a instrumentação mais delicada e leve combina com a força da Hayley como cantora – ela nunca soou tão transparente e confortável, mesmo cantando sobre sofrimento. Então, qual foi a sensação de lança-lo? No dia que o álbum saiu, Hayley estava dominada pela tristeza. Não era tão grave quanto havia sido nos dias mais sombrios quando ela não conseguia sair da cama e não queria compor músicas, e até o final da noite, ela já estava se sentindo melhor novamente – ela e os meninos colocaram o álbum e cantaram juntos. Porém, mais cedo, especificamente em um meet-and-greet para cerca de 300 fãs, ela estava fazendo um grande esforço. “Foi um dia pesado, porque nós estávamos nos libertando de algo que nós sentíamos que nos mantinha vivos”, ela diz. “E eu realmente acho que ele me manteve viva”.

Depois do almoço, Hayley vai para casa um pouco, depois nós marcamos de encontrar o resto da banda na casa do Zac, em um adorável trecho suburbano cheio de sombras no sul de Nashville, para uma noite de tacos e boliche. Porém, há um grande desvio antes de eu chegar. Eu estou no carro com a assessora de imprensa do Paramore, que havia me oferecido uma carona, e pouco antes de chegarmos no Zac, ela deixa claro que a Hayley não está confortável com alguns dos meus questionamentos feitos durante a entrevista daquela tarde. Quando eu questiono quais perguntas a incomodaram, ela me especifica algumas.

Quando eu chego para ficar com a Hayley e os meninos, eu senti o gelo bem rapidamente. Hayley é cordial mas está quieta. Ela mantém seus óculos escuros e está impacientemente agitada, nós praticamente não mantemos contato visual. Ao sentar, eu tenho uma nítida sensação desconfortável de estar de volta ao refeitório do ensino médio, preso em uma mesa com um amigo que está chateado comigo mas que não quer, ou não consegue, explicar o porquê. Mexendo no meu celular, eu vejo no Twitter que pouco depois que nós nos despedimos, ela twitou algo implicante: “just enjoy the damn music” (“só curtam a droga da música”).

Um pouco desnorteado, eu pergunto à sua assessora se eu e a Hayley poderíamos conversar sobre o que deu errado, e eu vou até a entrada da casa do Zac para organizar meus pensamentos e esperar por uma resposta. Hayley aparece com uma notável explosão radiante de energia boa, nós sentamos na varanda enquanto o céu se torna um cinza brilhante e, depois, totalmente preto.
Ela me conta que depois da nossa conversa ela teve uma crise de pânico no carro. Ela se desculpa de todo o coração por como esse encontro acabou se tornando e conta que a minha pergunta sobre o processo judicial com seu ex-colega de banda foi um gatilho para ela. Ela diz que, por razões legais, é difícil saber o que ela pode ou não dizer, e que é igualmente cansativo e estressante para ela que todas as matérias recentes sobre a banda tenham focado nesse drama e não nas músicas. É justo. Porém, eu continuo insistindo e, por fim, ela admite que não foi só isso, mas que ela está tendo dificuldade em explicar ou até entender o que foi.

Eu sugiro que ela descanse e pense a respeito, dizendo que agora eu provavelmente escreveria sobre esse episódio estranho, e que talvez fosse bom que ela me apresentasse uma versão mais completa do seu ponto de vista. Para minha surpresa, essa ideia parece ganhar imediatamente seu interesse. Ela rapidamente concorda e nos abraçamos, depois fomos para o boliche num lugarzinho neon que não parece ter mudado de decoração desde os anos 80.
Zac compra uma caneca de cerveja e Hayley faz de tudo para ser fofa comigo, me encorajando mesmo quando erro todos os pinos. Alguém, reconhecendo a banda, coloca uma série de músicas do Paramore no som, e Hayley pula pra cima e pra baixo, pega uma bola rosa que combina com seus óculos de sol – ainda no seu rosto mesmo às 9:30 da noite – e a joga direto na calha, onde acaba ficando estranhamente presa. Em seguida, eu jogo uma bola roxa na tentativa de desprendê-la, mas isso só piora o problema: enquanto a bola rosa da Hayley é tirada com sucesso, agora a minha está presa. Depois que fiquei em último lugar no nosso primeiro jogo, ela me parabeniza como se eu tivesse ganho, e eu não tenho certeza se isso faz eu me sentir como o garoto mais popular das aulas de educação física, ou o idiota desamparado que foi empurrado numa poça e precisa ser animado.

Na noite seguinte, Hayley me busca em seu Fiat e dirigimos até um pequeno hotel sofisticado com um bar espaçoso em uma parte badalada de Nashville. Percebo que o smoothie, pela metade, que eu havia comprado para ela no dia anterior ainda estava no carro, agora marrom e fétido. “Vê o quanto eu sou nojenta?” ela diz. No bar, eu digo o quão chocado fiquei ao saber que o que eu pensei ter sido uma conversa tão agradável provocou tal reação. “Eu comecei a pensar sobre todas as coisas que nós conversamos”, ela disse, “e depois sobre como eu ainda estou passando por várias dessas coisas. Tipo, eu ainda… não superei esse álbum. E eu estou mais velha também. Se eu fosse subir na minha bicicleta BMX agora, sabendo de todas as formas que eu posso me machucar, é diferente de ser a criança de 10 anos que eu costumava ser, fazendo ladeiras e andando tão rápido e loucamente quanto os garotos da minha vizinhança.”
Ela diz que com o passar dos anos, ela se tornou cautelosa ao falar muito sobre si mesma ou a banda porque, em algumas situações, as brigas e amizades perdidas que ela vivencia na vida real se tornam material para fofocas e manchetes. Eu pergunto se o tweet que ela enviou – sobre apenas curtir a droga da música – foi por conta da frustração sobre a entrevista, e ela diz que não, que aquilo foi na verdade uma resposta aos fãs que estavam enviando, insistentemente, os números da primeira semana de vendas do álbum. Ela diz que está tão cansada do aspecto comercial da indústria fonográfica que, antes do lançamento do ‘After Laughter’, até tentou renegociar seu contrato com a Atlantic – aquele que ela assinou na adolescência – para que ela pudesse diminuir a quantidade de álbuns que ela era obrigada a entregar. “Eu não queria mais [o contrato] me sobrecarregando, e eu queria acabar com esse lado corporativo da coisa”, ela diz. A Atlantic não negociou.
Do ponto de vista da Hayley, tudo o que ela queria era ter amigos para poder fazer música juntos. “Eu era filha única, e eu queria muito fazer parte de alguma coisa. Quando eu fui contratada por conta própria, eu me senti muito sozinha”, ela diz. “Se meu pai estivesse aqui, ele te contaria sobre todas as páginas no meu diário onde eu me desenhei com mais quatro outros amigos sem rosto segurando diferentes instrumentos. É por isso que, quando eu vejo alguém em um show se acabando de chorar porque está em um lugar com mil pessoas que a entendem, eu também choro no palco. E eu disfarço porque é constrangedor. Mas eu sei qual é a sensação de simplesmente querer encontrar o seu lugar. E esse é o meu lugar. Esse é o meu lugar.”

Então chegamos a um impasse. Ela diz que após uma década na vida pública, é melhor que algumas coisas não sejam ditas. “O que eu devo às pessoas?” ela se pergunta algumas vezes. E ela está determinada, que apesar de todas as suas lutas, ela quer que o mundo saiba que há alegria de verdade em estar na banda nesse momento. “Não há nada que eu realmente queira dizer sobre o álbum que eu já não tenha dito,” ela comenta. “E é por isso que eu sou tão grata pela música. Porque é onde eu posso expressar partes de mim mesma que eu realmente não sei como expressar.”. Conversamos mais um pouco, mas a conversa chega ao fim não resolvida. Ela diz que provavelmente não dará entrevistas por um tempo, pelo menos não sem seus companheiros de banda.

Hayley me ofereceu uma carona de volta ao meu hotel e, no caminho, ela me mostrou uma demo de “Forgiveness”, a música que eu disse a ela ser minha favorita do álbum ‘After Laughter’. Cantamos juntos no caminho. É uma canção sobre o quão difícil pode ser o perdão, mas, naquele momento, estávamos apenas nos divertindo. Às vezes você não é tão diferente da pessoa que você era aos 15 anos de idade, agressiva e com uma sensibilidade excessiva em alguns momentos, mas é tão verdadeiro que sempre parece certo colocar uma música triste no último volume no carro. Ela diz que eu tenho a voz boa, mas eu não tenho certeza se ela só está sendo legal ou se é realmente verdade.

Paramore Brasil | Informação em primeira mão
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JJ Ravagnani

  • Bianka Carbonieri

    Pesado.

    • Bianka Carbonieri

      Me identifico tanto com a Hayley, com a forma de pensar, temos os mesmos incômodos, os mesmos questionamentos, e eu poderia contar sobre quantas vezes ouvir as músicas do Paramore literalmente salvou minha vida. Lendo essa matéria dá pra quase cortar no ar e sentir quão real o After Laughter é. Se nem eu que sou apenas fã superei esse álbum ainda, imagina ela.

    • Bianka Carbonieri

      E esse cara parece tão inconveniente que ser a Hayley ali sendo entrevistada é a sorte dele. Se fosse qualquer outra pessoa, provavelmente teria mandado ele tomar no cu e dar uma segurada na emoção.

  • Poliana Miranda

    Gente, fiquei abalada