Em entrevista nostálgica, Hayley Williams fala sobre amadurecimento e vivência feminina no antigo cenário musical

Em janeiro de 2018, o Paramore levou a Tour Three até a cidade de Manchester, onde se envolveu com uma ação social desenvolvida por moradores de rua, que vendem revistas editadas e publicadas por eles mesmos, para poder manter uma forma de sustento.

A Big Issue North é vendida nas portas das casas de shows por £2.50, e conta com artigos sobre tecnologia, política, acontecimentos e entretenimentos, e, no mês passado, contou com uma entrevista de Hayley Williams, que foi divulgada online há pouco tempo, agora que as edições impressas saíram de circulação.

A revista publicou também um Q&A com Taylor York e Zac Farro, que já foi traduzido por nós e pode ser lido aqui.

Confira a entrevista de Hayley Williams:

“Vá ler os diários que você escrevia quando tinha 17 anos,” sugere Hayley Williams. O que você encontra? Um monólogo revoltado cheio de indiretas para seus pais? Exageros sentimentais direcionados a um amor que não é recíproco? Anotações sobre os erros da sua melhor amiga? Então imagine ter tudo isso gravado em cima de uma faixa pop-punk, com um vídeo que já foi visto por milhares de pessoas. Vou assistir enquanto você entra na caverna da vergonha.

Williams, vocalista principal do Paramore e única pessoa constante na banda, começou a escrever hits emo quando formou a banda com um grupo de amigos de sua terra natal, Franklin, Tennessee, em 2004. No ano seguinte, quando ela tinha 17 anos, o Paramore lançou o LP de estreia All We Know Is Falling (2005), e, logo depois, o álbum de sucesso, Riot! (2007).

“Foi há muito tempo e eu não quero ser quem eu era quando tinha 17 anos,” diz Williams, que completou 29 anos no mês passado, refletindo sobre as músicas que a alavancaram para as paradas de sucesso quando ainda era adolescente. “Quando você está na escola, você é essa criança que ainda não se descobriu. Você ainda não entende muitas coisas, mas você acha que sim. Não estou dizendo que a adolescência não vale para nada, ou que pessoas mais jovens não são inteligentes – não é isso. É que existem muitas experiências pelas quais você precisa passar para criar certa empatia e compaixão por si mesma.”

Ela está falando sobre uma música em particular. O carro-chefe do Riot!, Misery Business, ainda é popular em clubes de rock, mas a letra da música não amadureceu tanto quando a vocalista, que trocou seus conhecidos cabelos coloridos por cabelos loiros, mas ainda conseguiu manter sua juventude. Pouco depois do lançamento de Sk8er Boi, de Avril Lavigne, Misery Business surgiu como uma narrativa clássica de vingança, apontada diretamente às meninas malvadas, e ficando um pouco para trás na #solidariedadefeminina. “Honestamente,” diz Williams. “Eu não me identifico mais com essa música, de forma alguma.”

Apesar de um tumultuado 2017, que incluiu o acordo jurídico com o ex-baixista Jeremy Davis e o divórcio de Williams com o guitarrista do New Found Glory, Chad Gilbert, o Paramore lançou um álbum ambicioso e que virou o jogo, o After Laughter.

Crescer sob o olhar público sempre foi um dos piores aspectos da fama, e, felizmente, Williams enfrentou tudo isso de um modo um pouco mais Taylor Swift do que Britney Spears [anotação por Paramore Brasil: a cantora passou por um surto psicológico em 2007]. Mas em 2018, isso não é mais um problema exclusivo para celebridades, já que, agora, adolescentes chegam à fase adulta guiados por uma trilha digital. As páginas de diário passaram a ser vlogs, páginas no Tumblr e status compartilhados para além das paredes adornadas com pôsteres de um quarto.

Williams está no centro de uma geração que nasceu sem a internet, mas que ainda foi jovem o suficiente para adotá-la e passar a utilizá-la na vida adulta. Os pais dessas pessoas podem ser “tecnofóbicos”, mas os filhos são nativamente digitais.

“Nossa banda se beneficiou da internet, mas, mesmo quando éramos crianças, antes de usar a internet para promover a banda, nós a usávamos como qualquer outra pessoa – para encontrar musicas novas ou atualizar nosso perfil no Instant Messenger, talvez com algumas músicas passivo-agressivas sobre como estávamos nos sentindo,” diz Williams. O Paramore e outras bandas emo como o Fall Out Boy, Panic! At The Disco e All American Rejects tiraram inspiração de grupos como o Blink-182 e Green Day para construir um lar virtual.

“Nós éramos jovens descobrindo a si mesmos, descobrindo onde nos encaixávamos. Muitos de nós não gostava necessariamente do punk hardcore, mas nós gostávamos de coisas que eram diferentes e que não tocavam nas rádios ou eram vendidas em largas quantidades. Era legal porque tínhamos nosso próprio lugar [online e também nos shows], e ter nossa própria banda era muito legal porque a gente sentia que podia dar para outras pessoas da nossa idade uma ideia de pertencimento e uma válvula de escape para as outras partes da vida que elas estavam vivendo. Para mim, era isso que o cenário emo era.”

Com uma mulher à frente dos palcos, com uma banda de caras na parte de trás, o Paramore foi uma banda única em um cenário dominado por homens, e inspirou uma onda de bandas de rock alternativo com a mesma formação, como o Pvris, Tonight Alive e Marmozets. Williams diz que nunca se sentiu excluída por estar cercada por homens.

“Eu me sinto muito grata – ultimamente, temos visto muitas histórias vindo à tona, eu não tenho uma história de terror assim. A pressão veio da mídia, não das pessoas que trabalhavam comigo, então acho que não foi tão difícil assim para mim. Eu acho que foi diferente.”

Ela concorda que existe uma expectativa para que vocalistas sejam atraentes, mas ela diz que isso é uma expectativa maior em relação às mulheres, no geral.

“Não ia importar se eu estivesse no Paramore ou não – todas nós vemos capas de revistas todos os dias, nos fazem passar por todos os tipos de coisa… eu sou uma mulher que acorda todos os dias e adora passar delineador e se vestir de uma maneira que eu acho legal ou algo assim, mas não sei se seria diferente se eu não estivesse na banda. O que é legal sobre as pessoas é que, quanto mais nós conhecemos uns aos outros, nos identificamos uns com os outros e conseguimos olhar nos olhos uns dos outros, toda essa merda deixa de ser importante. Torna-se mais sobre o que as pessoas passaram, e você começa a perceber o que a beleza realmente é.”

A internet e o cenário musical mudaram radicalmente – Williams agora tem mais de 5 milhões de seguidores no Twitter, e, mesmo passando pelas dores do crescimento, a banda se estabilizou com o guitarrista Taylor York e com o retorno do baterista Zac Farro. Os milhares de fãs que os assistiram em Manchester, no mês passado, durante a turnê do After Laughter, ouviram um experimento da banda com o synth-pop. Williams está nostálgica e otimista.

“Tudo é muito diferente do que era 10 anos, 5 anos atrás. Tenho certeza de que uma pessoa mais nova que eu odiaria me ouvir dizendo isso, mas parece que antes nós podíamos fazer parte de algo realmente puro e, de alguma forma, ainda intocado. Eu me sinto feliz por termos vivido aquela época, e também por termos amadurecido nela. Nós temos experiências sobre as quais podemos construir nossas bases agora.”

As controvérsias envolvendo a letra de Misery Business já foram comentadas, mais de uma vez, por Hayley Williams. Leia a declaração mais recente aqui.

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Larissa Stocco

They may be hard times, but at least they're neon ▪ Instagram: @laristocco