Em entrevista concedida a NPR, Hayley Williams comenta como o Petals for Armor nasceu após altos e baixos na sua vida pessoal e quais foram as consequências que a vida na indústria musical, e à frente de uma banda de maioria masculina, trouxe para a sua imagem e para a sua saúde mental.

A revista mostrou fotos registradas durante as gravações do disco e ainda conversou com Taylor York, colega de banda de Hayley, que contou como ele enxerga a arte da sua amiga e como foi produzir um álbum cheio de referências inéditas para a dupla.

Há flores por toda a casa de Hayley Williams em Nashville, tanto vivas quanto mortas: ramalhetes secos de rosas enrugadas, hortênsias da cor de páginas de brochura desgastadas pelo tempo, potes vibrantes de flores roxas e brancas que refletem o sol do pátio. No começo, foi sugestão da sua terapeuta a ideia de rodear-se com rosas – ela nunca foi uma pessoa que gosta de flores, nunca se sentiu tão conectada com essas ideais feministas e as “coisas de garota” que estão no pacote. Mas Hayley Williams começou a ver as flores de formas diferentes, começou a colher e mantê-las mesmo depois de toda sua beleza natural ir embora.

“Flores se tornaram um jeito simples de me lembrar da beleza, da resiliência e da maneira que nos tornamos vivas quando somos bem cuidadas,” Williams conta para o NPR. Ela está em casa, claro, em Nashville, conversando por uma chamada de vídeo enquanto o rabo do seu cachorro Alf aparece no enquadramento. Tem sido dias bem difíceis de quarentena para a vocalista do Paramore de 31 anos e, agora, artista solo, mas hoje ela trocou as pantufas e casacos por “roupas reais.” Ajudou um pouco, ela pensa: é um pequeno gesto de autocuidado que funciona como fertilizante para a alma. “Mas as flores também mostram,” ela diz, olhando firmemente para a câmera, seu cabelo metade branco e metade loiro com tons de marrom, “quando elas não estão sendo bem cuidadas.”

Flores nunca mentem – se você não regar, alimentá-las ou às colocarem expostas ao sol, elas vão falhar em crescer. Mas pessoas podem ser diferentes. Pessoas podem murchar internamente enquanto, no exterior, parecem brilhantes escondendo folhas mortas e raízes emaranhadas ao redor dos corações. Por anos, Williams esteve num relacionamento tóxico e num casamente que, de uma visão externa, pareceu cutucar em todas as feridas. Na verdade, como ela canta na perfeita e contagiante “Dead Horse,” ela estava prendendo seu folego durante uma década.

É apropriado dizer, de certa forma, que o Petals for Armor é o álbum solo que ela nunca pensou fazer depois de ter passado 16 anos do Paramore ser criado em Franklin. Ela canta sobre uma versão que ela nunca pensou que seria, e a pessoa que aparece quando você se dá a liberdade suficiente para prosperar depois de abastecer seu mundo com sonhos de plásticos e buquês falsos.

“Eu tive que me jogar no fogo até entender a verdade.”

Raiva é onde Petals for Armor inicia. “Raiva é algo quieto,” ela canta em “Simmer” em suas primeiras palavras como artista solo, “Você acha que a controlou / Mas ela está só esperando.” A sua raiva, fervendo, pelo que ela passou com o seu casamento, pelo que as mulheres da sua família tiveram que encarar e por tudo que ela teve que passar enquanto crescia no mundo tóxico das celebridades. Ela sempre pensa naqueles anos iniciais do Paramore, momentos que ela era forçada a mostrar felicidade.

“Eu estava usando uma blusa de gola quadrada no palco quando de repente algo atingiu meu peito. Eu estava muito suada pois estava muito quente, aí olhei para baixo e haviam preservativos presos em mim. Eu ia para cima de todo mundo que jogava coisas em mim e que gritavam para eu tirar minha blusa. Eu não ligava. Eu olho para mim e penso, ‘Você não deveria ter lidado com aquilo! Você deveria estar procurando seu primeiro emprego em outro lugar.’ Aquilo foi a minha iniciação no mundo real.”

Ela começou a sentir-se como uma mãe para a sua versão mais nova, se perguntando como ela pode ter deixado a sua filha ter passado por aquilo tudo. “Eu sempre me coloco nesse lugar de me enxergar como uma pessoa inocente que não merecia algumas coisas que vi sendo uma pessoa jovem ou uma mulher jovem,” ela diz. “Me pergunto, ‘como eu reagiria? como me protegeria?'”

Williams já foi atingida por várias balas durante durante a existência da banda. Nos momentos em que o Paramore teve alguma desavença – o que não é algo muito incomum quando você junta um grupo de pessoas criativas e independentes e ainda exige que essas pessoas façam algo comercial – a culpa sempre caia para Williams e a pintava como vilã, aquela mais cruel, aquela com motivos hormonais. Nada disso combinava com a realidade, mas é exatamente onde centralizamos uma força central e feminina: elas sempre estão à procura de outra coisa, algo a mais, suas ações são tomadas por causa de um drama feminino.

Ela se questiona na possibilidade de não ser uma mulher e qual seria a narrativa. “Meus melhores amigos saíram e eu fui chamada de vilã. Se eu fosse um homem, como eu seria chamada?”

Essa raiva inicia o Petals for Armor, mas não o reflete inteiramente –  é apenas parte da história. Ainda assim ela não tem medo de mostrar sua raiva ao público, até porque ela vê seus ídolos Tori Amos e Alanis Morissette não sendo rotuladas como como pessoas que refletem emoções naturais do seres humanos, mas sim como “mulheres raivosas,” como se existisse um gênero para tal sentimento. “Como isso começou a acontecer? Como começamos a rotular essas pessoas como ‘vadias malucas’? Eu não entendo como isso aconteceu. Eu pensaria que, culturalmente, nós deveríamos crescer e nos libertarmos disso tudo.”

Esse foco na “raiva” substitui nossa habilidade de ver a genuinidade desses artistas, e as mulheres são raramente imunes e tiram anos ou décadas para sair dessa pensamento enjaulado.

“Do meu ponto de vista, o fato de Hayley ser mulher nunca foi o ponto da discussão” comenta Taylor York, do Paramore. “É algo para ser celebrado, mas não de uma forma que pareça ser porque ela conseguiu juntar um clube de elite onde ela teve permissão para andar com os garotos. Eu já vi ela ofuscar homens várias vezes por muitos anos, mas o que importa não é ela ter ofuscado os homens, apesar de ser muito foda presenciar isso, e sim ela ser uma cantora, uma compositora e uma artista fenomenal, ela merece reconhecimento por essas coisas. Eu nunca vou entender porque as trajetórias, reconhecimentos e igualdade são tão diferentes para mulheres, ou para pessoas que se identificam de forma contraria, são tão diferentes dos homens.”.

Como a vocalista da banda ganhadora de Grammy, Williams nunca escondeu as suas emoções: o mais recente disco do Paramore, o After Laughter de 2017, juntou suas histórias de depressão, dor e de perceber que talvez todo mundo dê risada para que ninguém veja as suas lagrimas. Mas em cada etapa do After Laughter Hayley esteva sofrendo. O seu casamento com Chad Gilbert, do New Found Glory, estava acabando. Ela se lembra de acabar adormecendo numa sessão de gravação, tão desgastada mentalmente que estava difícil se manter em pé. Ela não consegui comer e bebia muito durante a turnê. Quando finalmente ela voltou para Nashville e começou com intensas sessões de terapia, sua avó sofreu um acidente doméstico que resultou numa perca de memoria profunda e permanente. Isso foi um dicotomia amarga, mas essencial, que, enquanto ela estava tratando os seus traumas e e tentava criar raízes na sua vida, as pessoas que ela amava estavam perdendo as delas.

Ela começou a processar isso tudo nas músicas – primeiramente sozinha em casa e depois com uns rostos familiares. “Não me diga que Deus não tem um senso de humor,” ela escreveu em “Leave it Alone” com Joey Howard, baixista de turnê do Paramore, que se tornou um parceiro criativo no Petals for Armor. “Porque agora que eu quero viver, as pessoas que eu amo estão morrendo.”

Howard não foi o único membro do Paramore que estava envolvido no disco. O colega de banda e amigo desde os dias da adolescência, Taylor York, acabou produzindo o álbum, trazendo assim uma onda nova para os dois artistas. Eles estavam descobrindo tudo juntos, como sempre, um flashback para aqueles dias da adolescência que estavam começando uma banda de rock e que nunca imaginaram onde a estrada iria chegar.

“Foi tão incrível ver o que estava no nosso caminho. Essas músicas seguem uma linha de estilo que eu sempre quis ter,” diz Taylor sobre o disco que acabou tendo influencias de SZA, Radiohead e Spice Girls, trazendo inspirações harmônicas da dupla nigeriana Lijadu Sisters.

“Eu estava genuinamente feliz de ver o que sairia da mente dela quando trabalhando com compositores e colaboradores de fora da banda. Nunca fomos interessados em compôr com pessoas de fora do Paramore, mas, com esse projeto, nós fomos capazes de interagir e de se inspirar em diferentes energias e de coisas que não fazem parte de nós. Isso foi muito novo para a gente, e muito refrescante também.”

Zac Farro, o outro componente do Paramore, toca bateria no disco e dirigiu o videoclipe de “Dead Horse.”

“Ela sempre foi uma compositora muito sentimental, algo que cativou a sua audiência durante toda a sua carreira, mas a profundidade que ela alcançou nesse álbum é de outro nível,” diz Daniel James, que também escreveu alguma faixas do Petals for Armor.

E apesar de ela não ter procurado por colaborações inicialmente, trazer Boygenius – trio composto por Phoebe Bridges, Lucy Dacus e Julien Baker – se tornou uma expressão da alma em “Roses/Lotus/Violet/Iris,” uma música que fala sobre um mundo onde todos os tipo de forças e belezas femininas devem ser reconhecidas. É até uma faixa de letra controversa com “Misery Business,” hit do Paramore em que Hayley Williams escreveu durante a sua adolescência e que ela conclui que não reflete mais o seu sentimento como mulher. “Eu não vou comparar outras belezas com a minha / Eu não vou me tornar um espinho para a minha vida.”

Williams deveria estar promovendo o álbum – lançado em forma de EP. A terceira e final parte sai nessa sexta (8/maio) – e não sentada no sofá com o seu cachorro, bebendo uma batida e falando com a tela do computador. Mas ela insiste em dizer que isso tudo é por um motivo maior. No começo do ciclo do álbum, ela foi em 3 cidades da Europa num intervalo de 24 horas, já percebendo que ela iria falar sobre as perdas e todo o turbilhão emocional que aparece durante do o disco. “Eu não sei se eu queria aquilo. Eu não sei se me importava tanto assim.”

Ela tem preenchido os dias assistindo antigos shows antigos do Paramore com o maior entusiasmo de fã, gravando videos de dança e usando o seu teclado na sala de estar enquanto sonha com uma colaboração com Dixie Chicks (alias, Chicks, ela realmente que muito que isso aconteça). Ela esta assistindo filmes, especificamente filme com heroínas e talvez até filmes com cenas nojentas. “Eu amo filmes de vingança. Eu amo justiça.”

Muito dessa justiça está presente, de forma poetisa, na sua casa em Nashville, na qual ela se mudou quando seu casamento acabou e que virou o seu lar, com sua decoração, suas flores, seus móveis escolhidos não por causa de um futuro que ela almeja, mas com a vida que ela tem no presente. Petals for Armor é, em parte, sobre encontrar esse seu próprio lugar. Ela está re-lendo o livro “Mulheres Que Correm Com Lobos” de Clarisa Pinkola Estés, que tem uma frase sobre o poder que a mulher pode conseguir quando elas se dão tempo e permissão para ir pra “casa”, não importando o que ou onde isso seja: “Elas tomam de volta as suas vozes e escrevem. Elas descansam. Elas fazem qualquer pedaço do mundo ser seu. Elas tomam decisões imensas e intensas. Elas fazem algo para deixar marcas.”

Quando ela se aventura fora de casa é sempre obedecendo o distanciamento social. Ela caminha com sua amiga Becca Mancari e Julien Baker sempre conversam sobre ponderar a importância de lançar músicas num período como esse. É importante? É estranho promover um álbum durante uma pandemia globa? Como foi para músicos dos anos 60 durante a Gerra do Vietnã lançar músicas como protestos? “Eles perceberam o presente que isso era para as pessoas, ou se sentiram culpados? Eles se sentiram fúteis em fazer isso e tentaram até celebrar tal feito?”

Apesar disso tudo, Williams tem contado com seus amigos, as mulheres principalmente. É algo que você aprende depois de anos vivendo num mundo inteiramente dominado por homens, onde está implícito que, para mulheres sobreviverem, elas devem ser “como os garotos” e ver as outras mulheres como competidoras. “Nós estávamos num cenário onde tudo tinha uma misoginia internalizada que eu não tinha noção,” ela diz balançando a sua cabeça.

Petasl for Armor retrata as dores para se reconciliar com toda essa experiencia: a usa feminilidade, suas relações com outras mulheres, e o contexto em que ela deixou a sua arte ser inserida. Tem sido trabalhoso mas ela chegou lá. “Foi algo bem lento para mim. Entender que tudo aquilo acabou machucando minha perspectiva feminina. E a minha resposta, sendo uma mulher jovem nos anos 2000, foi ser muito raivosa.”

De certa forma, é uma sincronia perfeita Hayley Williams lançar seu disco no mesmo período que Fiona Apple lançou o Fetch the Bolt Cutters, um álbum bem diferente do Petals for Armor, mas que mostra coisas parecidas: duas mulheres, ambas bem conhecidas no seu universo rítmico, com vozes poderosas, em um mundo que já reconhece as suas forças. Duas mulheres na luta para encontrar a definição do que significa ser mulher. Duas mulheres que tiveram que trabalhar por uma década (ou duas) para finalmente ser vistas como artistas incríveis que elas realmente são.

“Para mim essas novas músicas são com se ela estivesse acordando de um sonho e entrando nessa realização sincera do que aconteceu com uma história bastante pessoal,” diz Becca Mancari. “E sim, essa história é unica de Hayley, mas é bem maior que ela. Eu sinto que ela nos convida para nos observar, assistir nossas histórias, o nosso despertar.”

Mancari ainda diz que essa coleção de músicas “me lembra uns verso de um dos meus poemas favoritos de Adrienne Rich”:

“Eu vim para observar o erro.
As palavras são propósitos.
As palavras são mapas.
Eu vim para ver o estrago que foi feito
e o tesouro que prevaleceu.”

Palavras e histórias são mapas. Elas deixam pegadas. Williams mostra o dano feito nas suas musicas, no seu rosto, onde o mundo pode ver seu passado, seus erros, seu triunfo. A capa do álbum mostra ela com pequenos quadros pretos saindo de seus dedos e envolvendo seus olhos. Os quadrados das suas mão são o que sobrou da tatuagem que ela cobriu com as iniciais do seu ex, o que mostra que ela não quer mais esconder suas cicatrizes. Elas fizeram Hayley ser o que ela é hoje.

“Eu era um mulher murcha, sonolenta num quarto escuro,” Hayley canta em “Roses/Lotus/Violet/Iris.” “Eu esqueci minhas raízes / Agora me veja florescer.

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