Em nova entrevista, Zac Farro fala sobre o novo EP da HalfNoise e seus planos para o futuro

Em passagem pela Nova Zelândia, em turnê com o Paramore, Zac Farro foi entrevistado pela revista neozelandesa Coup de Main. Na entrevista, Zac fala sobre o novo EP ‘Flowerrs’, da HalfNoise, lançado em maio desse ano, suas considerações sobre as novas músicas, sua paixão por fotografia analógica, além dos projetos futuros que ele planeja para a sua banda.

Confira a tradução da entrevista na íntegra:

No novo EP ‘Flowerrs’, a HalfNoise de Zac Farro quer estabelecer uma paleta sonora inconfundível para o seu projeto musical – e é exatamente isso que ele conquista através das sete faixas presentes no EP. Desde o interlude de um minuto oportunamente intitulado “Inter Luau”, até “All That Love Is”, que começa com Farro cantando “You know I can’t fake it” (“Você sabe que eu não consigo fingir”) quando se trata de amor.

É a honestidade das letras sobrepostas aos instrumentais “zoados” (palavras do próprio Farro) em canções como ‘She Said’ que definem a HalfNoise. Com dois álbuns de estúdio e, agora, três EPs (que tem sido tocados ao vivo por uma banda de cinco integrantes e, atualmente, até durante os shows do Paramore), Farro encontrou seu verdadeiro caminho.

Nós conversamos com Zac Farro enquanto ele estava de passagem pela Nova Zelândia com o Paramore, no começo do ano. Nós falamos sobre o novo EP da HalfNoise, suas câmeras analógicas e sobre fingir emoções…

COUP DE MAIN: Esse novo EP da HalfNoise tem um som um pouco diferente do anterior, um pouco mais carregado de guitarras, essa foi uma decisão consciente para você?

HALFNOISE – ZAC FARRO: Que teriam mais guitarras? Não foi uma decisão super consciente, do tipo “eu preciso usar mais guitarras!”. Mas, eu acredito que tocar ao vivo foi importante para que a gente desenvolvesse um som com uma cara mais de banda. Eu não estava tentando fazer isso, mas com o ‘Sudden Feeling’ eu compus bastante usando teclados, para buscar um som de sintetizador e desenvolver em cima disso. O ‘Velvet Face’ tem um som muito mais retrô, eu realmente queria começar do zero e fazer um som bem minimalista. Então, não foi uma decisão maluca, eu meio que fui deixando fluir. Eu costumava amontoar todas essas coisas e aí as músicas ficavam muito densas e eu precisava tirar coisas. Eu descobri que se eu escrevesse com uma guitarra e colocasse o teclado no final, isso era tudo o que eu precisava. Não precisava de mais nada, menos é mais. Se você desmembrar as músicas e deixar só a guitarra, você vai conseguir ouvir as canções. Eu acho que eu queria que elas fossem fáceis de digerir, e com guitarra, baixo e bateria isso fica bem mais fácil de conseguir.

CDM: ‘She Said’ tem uma vibe bem descontraída. O que estava passando pela sua cabeça quando você estava escrevendo essa música?

ZAC: É engraçado que ela tenha uma vibe descontraída, porque a letra não é nada descontraída.

CDM: É bastante contrastante.

ZAC: Eu acho que é assim com muitas músicas. Eu não queria que ficasse pesado, mas o EP inteiro fala sobre como eu me preocupo demais, ou será que eu deixei alguma coisa escapar? Quando eu estava escrevendo, eu realmente estava sentindo aquele riff *canta o riff* e começou assim. Eu sentei um dia de manhã, eu tinha ficado acordado até tarde com uns amigos e eu estava me divertindo bastante, e eu acordei, desci as escadas correndo e simplesmente comecei a tocar a bateria para a música – e essa é realmente a bateria que está no EP, o que eu fiz na minha casa, em uma tomada só. Eu fiz todas as viradas que eu quis e eu não editei nada, na verdade. Nós tentamos regravar no estúdio, mas quando a gente terminou de gravar tudo direitinho, nós decidimos manter a bateria original – só tinha um único microfone na bateria, super minimalista, mas, por alguma razão, menos foi mais, de novo. Nós não conseguimos repetir aquele tom ou aquela vibe. O Taylor [York] foi até o estúdio e nós estávamos escutando a primeira música, ‘Flowerrs’, e nós estávamos tentando encontrar o tom que eu tinha conseguido na minha demo. Ele disse: “por que você não usa isso mesmo?”. E eu falei: “É verdade, eu não tinha pensado nisso”. Ele falou: “você vai ficar perseguindo esse som, que é estranho e excêntrico, você nunca vai conseguir repetir isso. Deixa esse mesmo e acrescenta umas coisas legais por cima”. Tem esse som meio zoado, mas ao mesmo tempo produzido, e eu acho que isso ficou bem legal.
Em ‘She Said’, eu estava ouvindo bastante Beatles e The Kinks, e a música não soa nada parecido com isso, mas eu queria que fosse, especialmente no refrão, muitas vozes cantando no mesmo tom, como muitas dessas bandas faziam. É meio estranho, eu estava com muito medo desse EP. Com o ‘Velvet Face’ eu sabia que seria divertido, principalmente com ‘Scooby’s In The Back’ e ‘French Class’, eu simplesmente me sentia mais confiante com aquele EP. Com esse [‘Flowerrs’], nós estávamos mais ocupados em turnê com o Paramore, e eu achava que as músicas simplesmente não combinavam. Mas, quando eu ouvi tudo junto eu pensei, “Ah, parece um mini álbum”. Te leva a algum lugar, ao invés de todas as músicas parecerem iguais. Eu acho que quando você passa o ‘Inter Luau’, ele faz uma curva legal que te leva para um EP com um som diferente, que era o que eu realmente queria. Desculpa, você perguntou sobre uma única música e eu falei sobre o negócio inteiro.

CDM: Você disse que o ‘Velvet Face’ foi o seu trabalho mais importante até agora. Esse novo lançamento te traz sentimentos diferentes ou mais fortes?

ZAC: Eu acho que eu sou uma pessoa muito emotiva, então quando alguma coisa está bem na minha frente, pra mim é a melhor coisa do mundo.


CDM: Então, agora o ‘Flowerrs’ é a melhor coisa do mundo?

ZAC: Sim! Aquela época [do EP ‘The Velvet Face’]… é muito estranho voltar para a Nova Zelândia. Eu lembro quando o Paramore veio pra cá quando eu estava morando aqui e eu pensava “isso é muito estranho, eu costumava estar nessa banda”. Agora, eu estou aqui com eles, e eu morava aqui, e eu fui nadar ontem e jantar com todos os meus amigos – eu tive a sensação de estar morando aqui de novo. Eu fui trabalhar com um amigo meu e o ajudei a arrumar um sofá e fui a um café. Então, enquanto eu vou ficando mais velho, eu vou percebendo a importância de ter uma temporada com tempo. Foi muito especial quando gravamos aquele EP, os dois, por razões diferentes. O ‘The Velvet Face’, por diversas razões, todos os dias era uma festa no estúdio, as pessoas estavam rindo, as pessoas passavam lá, a porta não parava. O ‘Flowerrs’ a gente gravou mais em horário comercial, então as pessoas estavam trabalhando, não podiam passar lá toda hora, mas ainda assim teve bastante gente. O estúdio ainda é divertido, as pessoas simplesmente ficam por ali, e a gente fica gravando. É uma banda realmente não-tradicional e é isso que eu amo. Eu tenho o Paramore como um show grande e legal, é simplesmente muito diferente – com a HalfNoise é um pouco mais livre pra todo mundo, porque não tem tanta gente envolvida, você tem um pouco mais de margem, mais controle das coisas. Eu estava conversando com um dos meus amigos e ele me disse: “Cara, eu ficaria um pouco preocupado se você não estivesse com medo desse EP”. Você nunca quer chegar em uma posição onde você pode dizer, “Legal, eu tenho certeza disso”. Eu acho que sempre tem que ter um pouco de modéstia…

CDM: É assim que você sabe que fez algo realmente pessoal, quando você tem um pouco de medo de compartilhar com as pessoas.

ZAC: É.

CDM: Mas o EP é muito bom, de verdade!

ZAC: Obrigado! Com o ‘The Velvet Face’ eu estava, e ainda estou, amando ouvir músicas antigas, músicas retrô, The Beatles, The Rolling Stones. Eu percebi que muitas bandas que eu amo seguem esse caminho e seguem essa era bem à risca. Eu não só não vivo naquela época, como também é meio engraçado tentar ser super anos 60 e aí pegar o seu celular. Eu entendo as pessoas se afastarem disso, mas, pra mim, eu realmente quero começar a entender qual é o perfil musical da HalfNoise. Eu sei que parece loucura, com dois álbuns e três EPs, e demorou tanto tempo, mas eu acho que os últimos EPs estavam realmente caminhando para um objetivo. Nós estamos fazendo mais shows, e teve um divisor de águas quando nós tocamos nesse restaurante chinês em Nashville chamado Lucky Bamboo. As pessoas falavam, “Vocês vão tocar onde?! Eu já comi rolinhos primavera lá.” Era como tocar no Monte Eden ou algo assim. Na verdade, é um lugar até grande, mas no fundo tem um palco com uma disco ball e todos esses laços, então a gente decidiu tocar lá. Nosso amigo Ryan da Austrália veio da Inglaterra só para tocar nesse show e tinham umas 400 pessoas lá. Foi o primeiro show que a gente começou a tocar ‘Scooby’s In The Back’ e ‘French Class’ duas vezes só pela diversão e no fim da noite tinham umas 16 pessoas no palco, foi uma loucura. Então foi isso que definiu o tom.


CDM: Eu espero que todos os próximos shows da HalfNoise sejam assim.

ZAC: Sim, os shows em Nova York, Nashville e Londres foram assim. É a mentalidade de querer cultivar esse tipo de energia e esse tipo de experiência. É todo um processo que envolve a música também, cultivar a experiência, tipo, “O que eu quero? O que eu quero que as pessoas pensem?”. Quando você pensa no The National, ou Tame Impala, ou Radiohead, você tem essa sensação – você sabe o que esperar.

CDM: É como se eles tivessem uma paleta de sons.
ZAC: Eu quero que a HalfNoise tenha isso.

CDM: ‘All That Love Is’ tem umas frases em francês – de onde você tirou isso?

ZAC: É o meu amigo de Paris. Eu perguntei para ele se ele poderia me contar uma história em uma mensagem de voz.

CDM: Você sabe a tradução?

ZAC: Ele é muito ruim no inglês, é incrível. É alguma coisa como “Nós estamos andando de mãos dadas, sentados em um monte de feno, e nós dançamos a noite toda e nos beijamos”, ou alguma coisa assim. É uma história bonitinha que ele inventou. É engraçado porque depois a música diz, “Tudo que o amor é, são esquinas vazias por essa cidade”. É bem triste e também meio que uma competição de dança para quem está com o coração partido – é engraçado, mas é o arranjo perfeito.

CDM: “Você sabe que eu não sei fingir”, você canta isso nessa canção. Você acha que o amor é a emoção mais difícil de fingir?

ZAC: Muitas emoções são difíceis de fingir para mim. Eu sou provavelmente a pior pessoa pra perguntar. Principalmente agora que estou ficando mais velho. Eu nunca consegui mentir, desde que eu era criança, minha mãe me perguntava, “você fez isso?” e eu falava, “Sim…”. Eu simplesmente não consigo mentir. Eu acho que o amor é a emoção mais difícil de fingir, principalmente depois de um tempo. Tudo depende do que você define como amor. Se é o amor romântico que você vê nos filmes, ele vai embora de qualquer jeito, então nesse ponto, o que você realmente está fingindo? Você está fingindo ter esse sentimento que você tinha e tentando voltar pra isso, pra essa ideia? Ou você realmente ama essa pessoa? Eu acho que no amor verdadeiro, a pessoa começa a se tornar parte da sua família, não de um jeito estranho, mas, depois de um ou dois anos, ela não é mais aquela pessoa mágica. Isso pode até evoluir pra uma conexão ainda maior. Mas eu diria que sim, é o sentimento mais difícil de fingir.

CDM: “Se eu pudesse mover as mãos do tempo”, você canta isso em ‘Every Single Time’. Você acha que os seres humanos estão constantemente lutando contra a inevitabilidade do tempo?

ZAC: 100%. Seja o passado, presente ou o futuro, nós sempre estamos tentando lutar contra ele. Nós antecipamos demais alguma coisa, ou nós não estamos totalmente contentes, ou estamos nos arrependendo de algo. Sempre existe essa tendência. É por isso que compor músicas é muito legal, porque te ajuda a lembrar onde você está agora. Para mim, eu não sou aquelas pessoas que cantam a música ao vivo e sente tudo de novo – eu meio que quero que isso saia de mim, como um vômito emocional. “Se eu pelo menos pudesse mover as mãos do tempo”, foi uma perda de tempo estar com você ou eu gastei meu amor à toa para amar você? É sobre isso que fala a música. Parece que toda vez que eu namoro alguém ou me exponho para isso, não serve para nada. É tão simples como dirigir por entre uma floresta de pinheiros, e eu nunca disse isso pra ninguém… No caminho pra antiga casa do Rowan [Crowe], ele costumava morar na costa, tinham esses grandes pinheiros na Rodovia Um?

CDM: Rodovia Estadual Um?

ZAC: Isso. Então tinham todos esses pinheiros e eu ficava ouvindo música sozinho, indo para casa. Ele trabalhava na cidade e eu ia compor na casa da sua família em Whangaparaoa – eles não moram mais lá. Quando eu pensava que precisava de espaço, eu pensava nessa estrada, o que é legal, porque é na Nova Zelândia!

CDM: Eu notei que você tem se interessado cada vez mais por fotografia analógica. Que tipo de câmera analógica você usa?

ZAC: Eu estou com uma da Kodak, mas elas parecem que vivem quebrando comigo. Eu tenho algumas câmeras. Eu tenho que dizer que a minha favorita é a minha Minolta Hi-Matic F, meu irmão mais novo tinha essa, é bem legal. É bem difícil focar com ela, mas eu estou começando a gostar desse desafio. Eu tenho fotografado com câmeras menores, eu tinha uma Contax T2, mas ela quebrou.

CDM: Tenho a impressão que todas as suas câmeras estão quebrando!

ZAC: Elas estão! Eu tinha uma Canon AF que quebrou. O que está acontecendo? Eu acabei de comprar uma Kodak em Melbourne, e ela tem um visual super legal, mas de perto ela desfoca. Eu ainda estou em busca da câmera perfeita. Eu acho que a Contax T2 com o filme certo é muito confiável.


CDM: Você diversificou as músicas da HalfNoise que a gente pode ver em um show do Paramore – era ‘Scooby’s In The Back’ e agora é ‘French Class’. Tem alguma música nova do EP que você está pensando em tocar agora?

ZAC: Nós conversamos sobre isso… Nós estamos nos divertindo muito com ‘French Class’ agora, e nem foi ideia minha, na verdade. O Taylor e Hayley falaram, “A gente deveria tocar uma das suas músicas!”. E eu falei, “Eu me sinto meio estranho com isso. Isso é loucura”, mas têm sido muito legal fazer isso.

CDM: Eu vi o vídeo de ‘French Class’ em Paris e foi muito louco.

ZAC: Foi muito divertido, foi a primeira vez que a gente tocou na França. Talvez alguma das novas, ‘Flowerrs’ ou ‘All That Love Is’, as mais dançantes – porque aí, mesmo que as pessoas não conheçam, elas ainda podem se divertir.


CDM: Quando o Paramore terminar a turnê atual do After Laughter, você vai passar mais tempo focando na HalfNoise?

ZAC: Sinceramente, eu tenho feito as duas coisas ao mesmo tempo. Eu quero muito poder gravar um álbum completo da HalfNoise. Esse é o próximo passo. Nós temos encontrado tempo para fazer os dois. Quando eu voltar pra casa da turnê com o Paramore, nós [HalfNoise] temos alguns shows na California e mais algumas turnês sendo preparadas. Na verdade, tem dado muito certo. Poder fazer as agendas funcionarem juntas, significa que nós temos mais tempo para descansar, nós temos mais tempo livre. Não está atrasando as coisas nem um pouco, e eu não quero que isso aconteça.

CDM: Por favor, venha fazer um show da HalfNoise na Nova Zelândia.
ZAC: Eu quero muito, de verdade.

CDM: Você deveria tocar aqui do lado no The Turning Fork, é um restaurante!

ZAC: Legal! Isso ia ser muito legal. Perfeito. Nós estamos trabalhando com uma gravadora australiana agora, então, eu espero que a gente vá começar a fazer mais shows, e aí a gente pode fazer um na Nova Zelândia. Se eu for pra Austrália, não tem como eu não passar aqui.

Paramore Brasil | Informação em primeira mão
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Juliana Ravagnani